Mais histórias de verão
Luis Fernando Verissimo
Vidão
Havia mar nos seus nomes, os dois eram jovens e livres e a vida era curta. Que outras razões faltavam para Marialva aceitar o convite de Gilmar e dar um passeio noturno na sua lancha, só os dois, as estrelas e o Marcão (outro com mar no nome!), um capixaba discreto, segundo Gilmar, para servir o champanha?
Marialva hesitou. Mal conhecia Gilmar, e já tinha sido avisada no clube: "Não saia de barco com aquele ali". Mas Gilmar era atraente, apesar de pequeno, pois o que lhe faltava em altura sobrava em dinheiro, e Marialva aceitou, e os três zarparam num fim de tarde, em meio a um crepúsculo de folhinha ("Encomendei para você!", gritou Gilmar, entre risadas das gaivotas. E depois, fazendo um gesto que englobava tudo, eles, o barco, o mar e o céu coloridos: "Vidão!").
Marcão, além de servir o champanhe, o patê e as ostras e cuidar do som (barroco italiano), pilotava a grande lancha, que balançava suavemente nas ondas tingidas de lilás, e teve que vir correndo quando o Gilmar levantou-se de onde estava deitado, com a cabeça pousada nas coxas nuas também tingidas de lilás de Marialva, e precipitou-se para a amurada do barco.
Marcão chegou a tempo de segurar a sua testa enquanto ele vomitava. Depois Gilmar falou:
- Não adianta. Vamos voltar.
Na volta, enquanto Gilmar repousava na cabine, Marialva ouviu de Marcão a história do seu desafortunado patrão. Era sempre assim. Ele enjoava até com mar calmo. Às vezes nem dava tempo de chegar à amurada, era em cima da mesa mesmo. Uma vez a moça que estava com ele, indignada com os respingos, o agredira com o balde de gelo. Acontecia todas as vezes. Ele começava a enjoar e tinha que interromper o passeio. Mas não desistia.
- Por quê? - quis saber Marialva.
- Porque é pra isso que ele comprou o barco. Porque é essa a vida que ele quer. Ou, como ele sempre diz, o "Vidão!".
- Mas por que não mudam pelo menos o cardápio?
- O quê? E servir chá com torradas? Não seria um vidão.
Dias depois, Marialva ouviu Gilmar falando com uma bela mulher no bar do clube. Dizendo:
- Ostras. Champanhe. Vivaldi. Só nós dois. E o mar. E se você quiser, providenciarei uma lua cheia. Hein? Hein?
Campeonato
Não fora nada planejado, as duas famílias nem se conheciam antes, mas aquilo acabara se transformando numa rotina. Todos os fins de semana se encontravam na praia e jogavam vôlei. Uma família contra a outra. Seis Farias contra seis Viera. As idades se equivaliam. Os dois times tinham um pai e uma mãe e quatro filhos adolescentes. No início era brincadeira, mas aos poucos os jogos tinham ficado progressivamente mais sérios, alguém tinha começado a anotar os resultados e, quando viram, os Farias e os Viera estavam disputando um campeonato, com melhor de três todos os domingos, cada vitória valendo um ponto, e quem tivesse mais pontos no fim da temporada ofereceria o churrasco – isso se no fim da temporada as duas famílias ainda estivessem se falando.
Pois o campeonato se tornara furioso, tanto que num dos domingos a família Vieira, em desvantagem na contagem geral, apareceu com um jogador novo, alto e forte, para substituir a filha de 13 anos, e os Farias imediatamente exigiram prova de que ele era um Vieira. Na identidade apresentada constava outro nome, mas o Vieira pai alegou que ele era sobrinho, e os Farias que provassem que não era.
A discussão foi longe, e combinaram que daquela vez passava mas que dali em diante só se aceitaria filho. No domingo seguinte, os Farias apareceram com um mulato alto e forte para marcar o sobrinho dos Vieira na rede e, diante dos protestos veementes dos Vieira e da ameaça de suspensão do campeonato, o Farias pai alegou que o mulato era seu filho natural, pois ninguém dissera que o filho precisava ser legitimo. No domingo seguinte os Vieira apareceram com mais dois jogadores altos e fortes, resultados, segundo o Viera pai, de duas aventuras extraconjugais suas, anos antes. Um, inclusive, que ele só ficara sabendo naquela semana, e por coincidência era campeão de vôlei.
- DNA! – gritaram os Farias – Exigimos o DNA!
Domingo, 8 de fevereiro de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.